segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013


NOVA RODOVIA INTEGRA O BRASIL AO PERU

 

Atrás do Paraíso Perdido, o engenheiro Euclides da Cunha (1866 -1909), autor do Os Sertões, e então recém-nomeado chefe da Comissão do Alto Purus, desembarcou na Amazônia nos primórdios do século XX, quando teve um sonho que somente se realizaria 100 anos depois: o da unificação do continente Sul-Americano através de uma rodovia interoceânica, ligando o Brasil ao Oceano Pacífico.  

Hoje, graças aos esforços dos governos do Brasil e Peru, os portos de Ilo, Maratani e San Juan, na costa peruana do Oceano Pacífico, já estão acessíveis aos brasileiros. Junto com a Estrada do Pacífico, além das obras rodoviárias no território peruano, o projeto realiza, pela primeira vez na história da América Latina, esse sonho tão almejado pelo escritor que possuía grande visão relativa à Amazônia. Para Euclides da Cunha, somente a implementação de políticas públicas de infraestrutura poderia tornar possível o Brasil interligar- se ao Pacífico e se integrar a seus vizinhos da América do Sul, em especial ao Peru, o que também é uma premonição do atual fenômeno comercial chinês e de que esta estrada seria fundamental para o desenvolvimento nacional.

Em 2005, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, na cidade peruana de Puerto Maldonado, do lançamento da pedra fundamental dessa sonhada rodovia, denominada Interoceânica. O presidente brasileiro ressaltou na ocasião que a obra representa a concretização do sonho de integração e um símbolo de que os povos latinos-americanos podem superar as limitações que travam o desenvolvimento do continente, pois a construção da rodovia é o início de um novo capítulo na história da região. “Iniciamos a integração física de nossos países e estamos concretizando o sonho de muitos que morreram lutando para que a nossa América Latina pudesse sofrer um processo auspicioso de integração”, enfatizou o presidente Lula.

Em janeiro de 2006, foi inaugurada a ponte binacional, que liga os municípios de Assis Brasil, no Acre, a Iñapari, no Peru. A ponte, construída sobre o rio Acre, possui 240 metros de extensão, pista duplicada e passarelas para pedestres nas duas laterais. Essa obra representou um investimento aproximado de R$ 25 milhões, com recursos do Governo Federal e do Governo do Estado do Acre. Pela BR-317, a também chamada Rodovia do Pacífico, totalmente asfaltada no Acre, o Brasil se une à fronteira com o Peru e, consequentemente, com os portos de Ilo, Maratani e San Juan, na costa pacífica.

Independentemente do desenvolvimento econômico e do estímulo ao intercâmbio comercial que a Rodovia Interoceânica traz para os mercados fronteiriços, o turismo também será altamente beneficiado com o empreendimento, pois proporciona um grande elenco de atrativos e destinos, unindo a exuberante planície amazônica às exóticas montanhas de floresta da cordilheira dos Andes e às históricas fortalezas sagradas do império Inca, além das ruínas de Macchu Picchu, eleita como uma das sete maravilhas do mundo moderno, onde o turista de qualquer parte do Brasil poderá agora aventurar-se de carro.

Partindo do Acre, por Assis Brasil, em poucos quilômetros chega-se até a vizinha cidade peruana de Iñapari, distante 230 quilômetros de estrada de piçarra até Puerto Maldonado, cidade de porte médio considerada a capital dos Andes tropicais peruanos. Dali, a rodovia segue rumo ao Pacífico, passando por Cuzco, capital do vale sagrado dos Incas, visitada por milhares de turistas do mundo inteiro. Entre Puerto Maldonado e Cuzco são 510 quilômetros de subida pela selva e pelas montanhas das cordilheiras dos Andes, onde encontra-se o único trecho crítico da estrada e que está sendo trabalhado pelo governo peruano. O trecho de 300 quilômetros antes da subida das cordilheiras apresenta pequenos defeitos, principalmente na passagem por pequenas pontes e cancelas montadas sobre os riachos e igarapés que descem dos Andes. De Cuzco, a viagem prossegue tranquila para Arequipa, a mais antiga das cidades peruanas. Nesse trecho de 520 quilômetros a estrada é de cascalho bem compactado e apresenta bom tráfego durante o ano todo.

De Arequipa, a viagem do Acre ao Pacífico pode ser concluída pelos 310 quilômetros de boa rodovia até a cidade portuária de Ilo, no sul do Peru, próxima à fronteira com o Chile. O porto de Ilo é o mais próximo do Acre, a 1.900 quilômetros de distância. A pavimentação da Rodovia Interoceânica custará mais de US$ 700 milhões, oriundos dos governos brasileiro e peruano e da Confederação Andina do Fomento (CAF), cujas obras do primeiro trecho é de 700 quilômetros, entre Assis Brasil e Cuzco, onde o tráfego é considerado difícil. O trecho até Urcos, a 45 quilômetros de Cuzco, está em pavimentação. A conclusão da obra está prevista para julho de 2010.

O governo peruano também pretende concluir uma rodovia alternativa que, a partir de Puerto Maldonado, poderá encurtar em cerca de 400 quilômetros a ligação rodoviária entre Rio Branco e o porto de Ilo. Trata-se esta de uma estrada, cujo traçado já existe, que ligará Puerto Maldonado a Puno, próximo à fronteira peruana com a Bolívia. Com essa rodovia, a ligação rodoviária entre a capital do Acre e o Pacífico peruano será reduzida para apenas 1.500 quilômetros, passando por uma região menos montanhosa do que a da subida das cordilheiras.

Nesse contexto, o Acre é um dos pontos estratégicos para a consolidação das interconexões econômica, comercial, social e cultural entre Brasil, Bolívia e Peru. Aliás, o Estado está fazendo uma verdadeira revolução em matéria de desenvolvimento e já passa a ocupar espaço de destaque nas estratégias dos poderosos grupos financeiros interessados em grandes investimentos.

Para os que desejam visitar apenas Cuzco, existem, ainda, duas outras maneiras de se chegar a esta cidade histórica peruana: por avião, mais convencional e objetiva, e pelo lendário “trem da morte”, essa última, uma viagem conhecida há décadas pelos mochileiros. A via aérea é a mais simples para quem tem pouco tempo: há vôos diários de diferentes empresas aéreas brasileiras e internacionais (LAN, TAM, GOL, etc.) com destino a Lima, capital do Peru, cujas viagens sem escalas duram até cinco horas. Os vôos domésticos da capital peruana duram aproximadamente uma hora e saem todas as manhãs em direção à cidade de Cuzco. Há também a possibilidade rodoviária para esse trecho, através da rodovia Panamericana Sur, ou dos ônibus de empresas rodoviárias, como a Cruz del Sur, em viagem que pode durar até 20 horas.

O trem boliviano é o tradicional roteiro utilizado pelos mochileiros brasileiros que vão à Cuzco, uma viagem ideal para quem quer gastar pouco, dispõe de tempo e deseja aventura. O trajeto começa em direção de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, pela Viação Andorinhas. O viajante segue até Puerto Quijarro, fronteira da Bolívia com o Brasil, para tomar o famoso “trem da morte” para a cidade de Santa Cruz de la Sierra (empresa Companhia Oriental), seguindo 18 horas de viagem pelas linhas férreas bolivianas até La Paz. Da capital boliviana, o turista segue de táxi ou coletivo rumo à Copacabana (ainda na Bolívia), na margem oriental do lago Titicaca. Na outra margem está a cidade peruana de Puno, de onde é possível seguir para Cuzco, por trem (Peru Rail) ou ônibus, através de pequenas empresas de transporte locais.

Por causa do acordo de livre circulação entre os países da América do Sul, brasileiros têm acesso fácil ao Peru. Apenas com a carteira de identidade e o comprovante da vacina de febre amarela, tomada ao menos 10 dias antes da viagem, é possível entrar em terras peruanas.

Roteiro:
Distância rodoviária entre Rio Branco, no Acre, e o oceano Pacífico: 1.900 km.
Rio Branco-Brasiléia (Acre): 220 km de estrada asfaltada.
Brasiléia-Assis Brasil (Acre): 110 km de asfalto. Assis Brasil, na fronteira tríplice, é separada da Bolívia por um igarapé e do Peru pelo rio Acre.
Assis Brasil-Iñapari-Puerto Maldonado: 230 km. Iñapari é uma pequena cidade peruana. Puerto Maldonado é de porte médio e, para chegar até lá, passa-se pelo rio Madre de Dios (nome boliviano do rio Madeira), um dos maiores afluentes da margem direita do rio Amazonas.
Puerto Maldonado-Cuzco: 510 km. Esse percurso é de estrada de pedra e cascalho, rodeada de mata e montanhas até a cidade lendária de Cuzco, antes da subida para a cordilheira dos Andes.
Cuzco-Arequipa: 520 km, trecho mais crítico.
Arequipa-Ilo: 310 km. De Ilo, cidade portuária, pode-se ter acesso à rodovia Pan-americana.


TURISMO CULTURAL NO PERU

 

O mundo globalizado de hoje coloca um grande leque de destinos turísticos na agenda das pessoas interessadas, principalmente pela facilidade de ofertas e preços das passagens aéreas. Não faltam pacotes de viagens para todos os bolsos e gostos, que também incluem hospedagens, excursões e bons guias aos mais diferentes lugares da Terra. O Peru é um desses destinos, um país que conta com belas e variadas atrações turísticas devido a sua rica história, a sua cultura milenar, a sua topografia exuberante e a gastronomia exótica. É um país com mais de cem mil destinos arqueológicos, razão pela qual o 80% do turismo é de caráter cultural, além de ser também rico em diversidade de animais e plantas.

Aos amazônidas, soma-se ao Peru um interesse especial – nele está a nascente do seu maior caudal, o rio Amazonas, no alto da parte ocidental da cordilheira dos Andes, no sul do Peru, que recebe, ao longo dos 6.937,08 quilômetros de seu percurso, os nomes de Carhuasanta, Lloqueita, Apurínac, rio Ene, Tio Tombo, Ucayali e Solimões. Esse também foi a civilização ansestral de diversos povos que formou a identidade cultural da região, além de ser o ponto de partida de Francisco Orellana, descobridor do rio Amazonas, cuja expedição deu também origem ao nome da Amazônia (1541).

A hisória do Peru data de civilizações pré-incas até os dias de hoje, tendo origem em culturas litorâneas como os Moche eos Nazca que floresceram entre 700 a.C. e 100 a.C., cujo o primeiro produziu notáveis instrumentos de metal e os mais excepcionais trabalhos em cerâmica da antiguidade, enquanto a cultura Nazca é conhecida pelo seu trabalho com têxteis e as enigmáticas Linhas de Nazca, só vistas do alto.

As cidades de Lima, que antigamente o conquistador Pizarro denominara Cidade dos Reis, com seu centro histórico, e Cuzco, que se caracteriza por sua arquitetura incaica e colonial são os lugares mais visitados pelo turismo receptivo peruano. Seus principais atrativos, entretanto, são o Vale Sagrado dos Incas e o sítio arqueológico de Machu Picchu (eleita como uma das sete novas maravilhas do mundo). O principal circuito turístico do país é o circuito sul, que engloba cidades de Ica, Nasça, Paracas, Arequipa, Chivay, Puno, Cuzco e Porto Maldonado, com grandes atrações arquitetônicas, culturais e naturais. Este circuito actualmente ampliou-se até a selva da região Mãe de Deus, onde o Parque Nacional do Manú é um ponto inevitável do turismo ecológico.

Callejón de Huaylas, na região do Ancash, é a segunda mais importante rota e sede do turismo de aventura peruano, onde se destaca o Parque nacional Huascarán e o principal ponto gastronômico novoandino.  Há ainda inúmeras outras rotas turísticas a oferecer, como as do vale do rio Mantaro, a cidade de Huancayo, na costa central sul e as cidades Trujillo, Chiclayo e Lambayeque, próxima a qual se encontra o Museu Tumbas de Sipán, que são pontos de partida para o circuito turístico das demais regiões do nordeste do país. Outro destaque peruano é o departamento de Puno, que se localiza no sudeste do Peru, na Meseta del Collao. A cidade homônima está a 3827 metros sobre o nível do mar , a margem do Lago Titicaca, um dos ícones geográficos dos Andes.  É considerado o porto lacustre do país e centro cultural do Altiplano.

Machu Picchu é um capítulo a parte no turismo cultural e arqueológico do Peru, pois traduz mistérios em cada pedra, que parece ter uma história interessante para contar. O monumento de pedras talhadas dispensa grandes apresentações e continua sendo uma fonte inesgotável da imaginação, teorias e poesias. Construído num lugar dos Andes de privilegiada beleza e difícil acesso, as ruínas de Machu Picchu, antiga cidade fortificada dos incas cujos jardins eram ligados entre si por mais de três mil degraus, em diferentes níveis, numa das zonas mais elevadas dos Andes, no centro-sul do Peru, próximo a Cuzco, antiga capital do império inca. A cidade foi construída num estreito planalto a 2.400 metros de altitude, dominado pelo pico escarpado de Huayna-Picchu.

Na Amazônia peruana, em Iquitos, o caudaloso rio Amazonas tem muito que oferecer ao turismo, onde se encontra grande parte da biodiversidade do país, inclusive em duas grandes reservas nacionais, a Pacaya-Samiria e a Alpahuayo-Mishana, que são áreas naturais de interesse ao turismo ecológico. Mas, para se conhecer lugares autóctones no Peru, o Departamento de Puno e os Distritos de Ajoyani, Ayapata, Coasa, Corani, Cruzeiro, Ituata, Macusani, Ollachea, San Sobretudo e Usicayos são destinos certos a serem visitados.

Para os brasileiros que desejam visitar apenas Cuzco, existem três maneiras de se chegar a esta cidade histórica peruana: por avião, mais convencional e objetiva, pela rodovia recém-denominada Interoceânica (Estrada do Pacifico), que liga a cidade acreana de Assis Brasil ao Porto de Ilo, e pelo lendário “trem da morte”, essa última, uma viagem conhecida há décadas pelos mochileiros. A via aérea é a mais simples para quem tem pouco tempo: há vôos diários de diferentes empresas aéreas brasileiras e internacionais (LAN, TAM, GOL, etc.) com destino a Lima, capital do Peru, cujas viagens sem escalas duram até cinco horas. Os vôos domésticos da capital peruana duram aproximadamente uma hora e saem todas as manhãs em direção à cidade de Cuzco. Há também a possibilidade rodoviária para esse trecho, através da rodovia Panamericana Sur, ou dos ônibus de empresas rodoviárias, como a Cruz del Sur, em viagem que pode durar até 20 horas.

O trem boliviano é o tradicional roteiro utilizado pelos mochileiros brasileiros que vão à Cuzco, uma viagem ideal para quem quer gastar pouco, dispõe de tempo e deseja aventura. O trajeto começa em direção de Corumbá, no Mato Grosso do Sul, pela Viação Andorinhas. O viajante segue até Puerto Quijarro, fronteira da Bolívia com o Brasil, para tomar o famoso “trem da morte” para a cidade de Santa Cruz de la Sierra (empresa Companhia Oriental), seguindo 18 horas de viagem pelas linhas férreas bolivianas até La Paz. Da capital boliviana, o turista segue de táxi ou coletivo rumo à Copacabana (ainda na Bolívia), na margem oriental do lago Titicaca. Na outra margem está a cidade peruana de Puno, de onde é possível seguir para Cuzco, por trem (Peru Rail) ou ônibus, através de pequenas empresas de transporte locais.

Por causa do acordo de livre circulação entre os países da América do Sul, brasileiros têm acesso fácil ao Peru. Apenas com a carteira de identidade e o comprovante da vacina de febre amarela, tomada ao menos 10 dias antes da viagem, é possível entrar em terras peruanas.

Alegria e festa marcam a cultura amazonense

Os festivais folclóricos, as festas religiosas e os eventos populares diversos registram o espírito alegre e festivo do povo amazonense. Nesse contexto, uma linha tênue separa a realidade da fantasia, a história do folclore no Estado do Amazonas, envolvendo lendas, costumes e tradições que, por sua vez, misturam eventos e personagens imaginários. Incorporando tudo isto à cultura regional, os valores objetivos e subjetivos das populações locais vão além da imaginação e materializam seus heróis e vilões em um conjunto de tradições folclóricas expressas artisticamente em festivais, tais como o de Parintins, Maués, Manacapuru e tantos outros que hoje marcam o calendário cultural da Amazônia, tendo como seu maior expoente o Festival Folclórico da Ilha Tupinabarana.

Sem dúvida, a influência das culturas portuguesa e nordestina foi marcante no folclore amazonense, que possui nítidas características indígenas. Tendo a natureza, a antropologia cultural e o poética nativa como expressões básicas, as manifestações populares acontecem na capital do Estado e em várias cidades do interior, cujo ápice acontece em Manaus e Parintins. É na capital que há mais de meio século ocorre anualmente um grande festa dos bumbas, dentre eles os mais recentes Corre-Campo, Brilhante, Gitano, Tira-Teima e Tira Prosa. Nessas festas juninas há também as quadrilhas, cirandas e danças nordestinas apresentadas em espetáculos no Centro Cultural do Amazonas, um local com toda a infra-estrutura para abrigar milhares de pessoas.

Em todo o mês de junho as festividades envolvem desde escolas, bairros e localidades no interior. Em Parintins, na última semana do mês, 35 mil pessoas dividem a torcida pelos dois grandes bumbás, o Garantido e o Caprichoso. Este é o mais disputado festival folclórico do Amazonas pela riqueza das apresentações que contam em detalhes as lendas e a mitologia indígena daquela região do Baixo Amazonas, bem como apresenta a vida cabocla na região. Mas nem só o Boi é festejado pelo povo amazonenese, cuja riqueza etnográfica é bastante diversificada e que em muito ainda precisa ser pesquisada para se compreender os significados dessas manifestações, por parte dos atores sociais que delas participam.

Torna-se necessário também documentar e traduzir a importância de cada evento realizado pelo povo do Amazonas, seja ele cultural ou religios, como o Festival Folclórico de Parintins; o Festival da Canção de Itacoatiara (Fecani); as festas do Cupuaçú, Açaí, Melancia, Castanha, Banana, Laranja, Mandioca de vários municípios; o Festival dos Peixes Ornamentais de Barcelos (Acará-disco e Cardinal); Festival do Guaraná em Maués; Festival do Leite em Autazes; o festejo de Santo Antônio em Borba; Festival da Ciranda em Manacapuru; Festa do Peixe-Boi em Novo Airão; Festa do Tucunaré em Nhamundá; a Festa do Sol em Lábrea; Festival de Músicas de Novo Aripuanã (Femuna); Rituais e danças indígenas: Festa da Moça Nova (Tikuna), Tucandeira (Sateré-Mawé), Kinirii (Apurinã), Maryba (Waimiri Atroari), Cariço e Dabucuri (Ticuno, Dessano, Tariano, Baniwa, entre tantas outras.

As origens do Boi de Parintins são imprecisas, mas há quem garanta que ele nasceu no fim do século XIX, trazido pelos nordestinos, ainda como um folguedo junino, na forma do tradicional Bumba-meu-boi, do Maranhão. Mais tarde, em 1913, Lindolfo Monteverde fundou o Boi Garantido, às vésperas do dia de Santo Antônio, como “Boi de Promessa”. Anos depois, ou em época aproximada, surgiu o Boi Caprichoso, criando a rivalidade que hoje dá magnitude ao Festival de Parintins. O que no começo era apenas uma brincadeira virou paixão junina e até brigas de rua, dividindo a cidade entre as cores azul e vermelha. Da Juventude Católica surgiu os festivais na década de 1960, quando a disputa dos bumbás passou para o campo da criatividade dos artistas e artesãos de Parintins. O canto virou toada, o boi de pano e tala ganhou movimento e o folguedo tradicional deu lugar a belas fantasias e grandes alegorias inspiradas na cultura regional. Enfim, Parintins chamou a atenção do governo do Amazonas, que construiu o Bumbódromo em 1988, um gigantesco anfiteatro em meio à Floresta Amazônica para apresentações folclóricas dos bois rivais, que passou a inspirar a criação de outros festivais, consagrando culturas, povos, fauna, flora e municípios da Amazônia.

O Boi-bumbá, aliás, é, sem dúvida o folguedo de maior significação estética, cultural e social do Brasil, brincado em quase todo o País, variando na forma, ritmo, toada, coreografia e nome em cada região. Apesar de instrumentos musicais, figurino e auto diferenciados, há um traço comum no folclore, no mínimo curioso, ele mais se desenvolveu em três ilhas brasileiras: Florianópolis (Boi de Mamão), São Luís (Bumba-meu-boi) e Parintins (Boi-bumbá), onde ganhou mais notoriedade no Brasil. Se o tradicional Bumba-meu-boi maranhense se tornou a manifestação folclórica brasileira mais difundida, Parintins deu-lhe grandiosidade e beleza, recriando o folguedo original e nele incorporando elementos culturais da Amazônia, sem desrespeitar suas raízes tradicionais. Este fato dinâmico é reconhecido internacionalmente pela repercussão dos festivais ali realizados e pelos milhares de visitantes que recebe todos os anos. Até mesmo o Carnaval do Rio de Janeiro se curvou diante da pujança e criatividade cênica do Boi de Parintins, sendo várias vezes enredo das escolas de samba na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, cativando públicos, artistas e formadores de opinião do mundo inteiro.

O Festival de Parintins representa os sons das toadas na floresta na cadência dos tambores tribais para dar passagem a cenários regionais gigantescos, onde a trama cabocla desfila para apresentar o seu grito de defesa da Amazônia. Figuras típicas como Pai Francisco, Mãe Catirina, Tuchauas, Cunhã-Poranga, Pajé e diversas tribos indígenas integram a ação dramática, cantando e dançando ao ritmo alucinante e contagiante das toadas de boi, espetáculo que se transforma numa verdadeira batalha folclórica, onde os simpatizantes dos Bumbás Garantido (Vermelho e Branco) e Caprichoso (Azul e Branco) explodem de emoção. Na arena do Bumbódromo, durante quase seis horas, a cada noite, eles encenam um verdadeiro ritual festivo, que encanta e contamina de entusiasmo.

O cenário do festival de Parintins fica a 420 quilômetros de Manaus, capital do Amazonas. Localizado à margem direita do Rio Amazonas, a cidade de Parintins, possui cerca de 100 mil habitantes, que, durante o ano inteiro respiram folclore e cultura. Para chegar à Parintins, o acesso pode ser aéreo ou fluvial, cujo o tempo de viagem de viagem varia de acordo com o modal: avião é de aproximadamente 1 hora, enquanto pelo rio o percurso é mais demorado e pode chegar a 18 horas de viagem, saindo do porto de Manaus.

BOA VISTA, A MAIS SETENTRIONAL

DAS CAPITAIS BRASILEIRAS


 

Para quem vem do hemisfério Norte, Boa Vista, capital de Roraima, é considerada a porta de entrada natural para a Amazônia e para a região onde se encontram as montanhas mais altas do país, como o Pico da Neblina, o Monte Roraima e o Monte Caburaí, que é o ponto geográfico mais setentrional do Brasil.

Boa Vista é única capital brasileira localizada totalmente ao norte da linha do Equador e o município mais populoso de Roraima, concentrando aproximadamente dois terços da população do Estado. Situa-se à margem direita do rio Branco, em um terreno quase totalmente plano, que favorece seu status de cidade moderna, destacando-se entre as capitais da Amazônia pelo traçado urbano organizado, radial, em forma de leque, como as ruas de Paris, na França. As principais avenidas do centro da cidade convergem para a praça do Centro Cívico Joaquim Nabuco, onde se concentram as sedes dos três poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário), além de pontos culturais, hotéis, bancos, correios e igrejas religiosas.

A capital roraimense conta com aeroporto internacional, sendo também acessível por via rodoviária procedente de Manaus e da Venezuela, que a interliga com o Caribe. Entre Manaus e Boa Vista são 785 quilômetros de rodovia totalmente asfaltada. Por este modal, as paradisíacas praias caribenhas de Isla Margarita (1.330 quilômetros), também podem ser acessadas através da cidade venezuelana Puerto La Cruz, distante 1.267 quilômetros de Boa Vista, tendo na fronteira Santa Elena de Uiarén, uma área de livre comércio com preços atrativos e a porta de entrada para a belíssima região turística ecológica chamada Gran Sabana.

Outro atrativo da cidade de Boa Vista são as praias de água doce que se formam com o nível das águas do rio Branco no período de seca (outubro a março), onde se promove eventos, passeios e banhos, além de campanhas de educação, limpeza e preservação ambiental. Praia Grande, localizada a seis quilômetros da área urbana, à margem esquerda do rio Branco, forma uma belíssima ilha de várzea com 15 quilômetros de extensão, separada por um braço do rio denominado Panamá do Serrão; enquanto a praia Água Boa está a 15 quilômetros do centro da cidade, às margens do rio Cauomé, com suas águas límpidas e tépidas. Também cercadas por vegetação típica da Amazônia estão as praias do Caçari, Curupira e Polar, todas dotadas de boa infraestrutura de apoio e serviços de bares e restaurantes.

Historicamente, a cidade foi formada pelo primeiro povoado caracteristicamente urbano desta região setentrional que pertencia ao Estado do Amazonas, então chamada freguesia de Nossa Senhora do Carmo, quando inúmeras fazendas ali se estabeleceram ao longo dos rios que compõe a bacia do rio Branco. Em 9 de julho de 1890, a freguesia foi elevada à categoria de município de Boa Vista do Rio Branco, pelo governador do Amazonas, Augusto Ximeno de Villeroy, cuja instalação foi feita em 25 de julho daquele mesmo ano.

No dia 13 de setembro de 1943, o então município de Boa Vista do Rio Branco foi desmembrou do Estado do Amazonas e passou a fazer parte do recém-criado Território Federal do Rio Branco, no mandato do presidente Getúlio Vargas, tendo como primeiro governador o capitão Ene Garcez dos Reis. O território mudou de nome, para Roraima, pela lei nº 4.182, de 1962, promulgada pelo Congresso Nacional, sendo por este transformado em Estado de Roraima em 1988.

Em vista aérea, a capital do Estado impressiona pelo seu traçado urbano moderno e pela farta e diversificada arborização das praças, ruas, jardins e quintais da cidade, havendo quem diga que Boa Vista é um verdadeiro pomar. As avenidas largas que convergem para o centro, num leque urbano planejado pelo engenheiro civil Darcy Aleixo Denerusson, a coloca entre as capitais mais bonitas do Brasil. A arquitetura das áreas mais antigas, próximas ao rio Branco, realça o estilo da virada do século XIX e XX: o neoclássico, que tentou reerguer com certo romantismo as formas romanas e gregas da antiguidade. Esses traços arquitetônicos podem ser facilmente identificados nos contornos dos umbrais na cidade, que está a uma altitude de 90 metros acima do nível do mar.

O município possui uma área aproximada de cinco mil quilômetros quadrados, o equivalente a 2,26% do total do Estado. É realmente pródiga de belezas e pontos turísticos, destacando-se a Orla Taumanan, que é um espaço de convivência e lazer que realça ainda mais as belezas naturais das margens do rio Branco. O local abriga 11 quiosques com lanchonetes, restaurantes e dois palcos para shows ao ar livre, sendo ali possível provar as delícias da culinária típica roraimense e também comida internacional, pizzas, sanduíches, chope, grande variedade de petiscos, crepes, doces e sorvetes. Além de tornar Boa Vista mais bela e acolhedora, a Orla Taumanan, que no idioma da etnia macuxi significa paz, cria novas frentes de trabalho ligadas diretamente ao turismo e à prestação de serviços.

O Jardim Botânico é outro point aprazível de Roraima. Ele reúne diversas espécies e ecossistemas roraimenses, exemplares de plantas nativas da Amazônia e até espécies exóticas, numa área de 4,3 hectares. O espaço escolhido para abrigar esse primeiro jardim botânico roraimense foi uma ilha de mata em meio ao lavrado, a poucos quilômetros do centro de Boa Vista, dentro do Haras Cunhã Puçá, meticulosamente preparado para usufruto de pesquisadores, professores, estudantes, ambientalistas e comunidade. Ali já existiam espécies como o caimbé, árvore símbolo do lavrado, e outras foram acrescentadas, como o pau-brasil, maçaranduba, açaí e o cupuaçu. Mas a atração principal do logradouro fica por conta de uma respeitável coleção de orquídeas, algumas das quais só têm ocorrência registrada em regiões específicas da Amazônia.

Boa Vista também dispõe do Complexo Poliesportivo Ayrton Senna que ocupa várias quadras, possui lanchonetes, parques infantis, quadras de tênis, futebol de salão e de areia, além de vôlei de praia, quadras de basquete e outros esportes.

Anexo ao complexo esportivo, a Praça das Águas possui fontes com águas em tons de cor diferentes que reagem sintonizadas à música que toca em caixas acústicas incluídas abaixo dos bancos. O Portal do Milênio é um belo e moderno monumento que fica na Praça das Águas para celebrar a chegada do terceiro milênio. Também anexo, o Centro de Artesanato, Turismo e Geração de Renda Velia Coutinho é um lugar para se prestigiar e comprar o artesanato roraimense (inclusive o indígena), muito bonito e bem cuidado, contando também com um espaço para shows e que toda noite oferece aulas gratuitas de ginástica. Possui também restaurantes e lanchonetes, anexo à Praça das Águas. A Praça das Artes também é parte do Complexo de Praças da Avenida Ene Garcez e reúne espaços para comercialização de comidas regionais, venda de artesanato, palco para shows e lazer infantil.

A Praça do Centro Cívico é o coração da cidade, o centro do Centro. Possui muitas árvores e vários quiosques comerciais, além de várias praças e quadras esportivas, inclusive o monumento ao Garimpeiro, feito em homenagem aos que desenvolveram Roraima na época em que o garimpo gerou riqueza e desenvolvimento no Estado. Foi construída onde existia a primeira pista de pouso da cidade. Próxima também se encontra a catedral Cristo Redentor, que possui uma bela e moderna arquitetura, sendo um dos principais templos religiosos do município. Já a igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo é a primeira igreja de Roraima e foi recentemente restaurada.

A capital possui ainda o Palácio da Cultura Nenê Macaggi: bonito e rico em obras culturais, onde se encontra a principal e a maior biblioteca pública do Estado. A Vila Olímpica fica num ponto estratégico da periferia, com ginásios, quadras de esportes, como atletismo e futsal. É uma das mais modernas da região, aberta ao público com aulas gratuitas. Já o Ginásio Totozão possui quadra poliesportiva, grande arquibancada, piscina e campo de futebol. O Parque Anauá destaca-se por ser o maior parque da região Norte brasileira, possui um moderno espaço coberto para shows, a maior pista de bikecross da região Norte, uma pista de kart, anfiteatro, museu, parques infantis, parque aquático recém-reformado, espaço para aeromodelismo, restaurantes, lanchonetes, lago, fontes e escolas.

Sendo habitada por uma população bem miscigenada, Boa Vista possui artesanato riquíssimo, com fortes características indígenas. Os índios confeccionam peças artesanais com grande perfeição, criatividade e uma riqueza de detalhes surpreendente, tornando-as verdadeiras obras de arte. O destaque é para a cerâmica fabricada pelos índios macuxis; os cintos de sementes de imbaúba, do povo uai-uai; as peneiras de arumã, da tribo ianomâmi; além dos trabalhos em madeira, palha e fibra e as esculturas em pedra-sabão de outros artesãos. Também são comumente usados no artesanato indígena o cipó, a jacitara, escada de jabuti (tipo de cipó), o bambu, a fibra de buriti, a fibra de abacate e açaí, o mulungu, o junco, etc. Colares e pulseiras de sementes são confeccionados com fios de algodão cru, sementes de imbaúba-braba tingidas com urucum, mangarataia, sálvia-do-campo, crajirú e jenipapo.
Na culinária regional, é fácil perceber a predominância da cultura indígena, que é muito apreciada pelos turistas graças ao seu exuberante tempero. Paçoca com banana, mugica de peixe, carne de caça e do peixe são alguns pratos típicos.



O nascimento da nação Yanomami

Quem são eles, quantos são, como surgiram como uma etnia brasileira e o que o reconhecimento oficial desse pretenso povo representa em si


A origem dos indígenas da Amazônia é um enigma a espera de elucidação até os dias de hoje. Na verdade, a etnologia ainda não reconhece a teoria do autoctonismo dos indígenas americanos, uma vez que está sujeita a vários questionamentos, como por exemplo: de onde vieram? Quais os meios e caminhos que percorreram até o continente americano? E por quais miscigenações passaram? São perguntas ainda à espera de respostas mais precisas e que se arrastam através do tempo.

Para dificultar ainda mais o entendimento sobre nossas origens, desfilam polêmicas geradas em torno de assuntos que envolvem verdade cientifica, manobras políticas, interesses econômicos e cobiça multinacional, como a da existência ou não da nação Yanomami, no setentrião brasileiro.

Sabe-se que a Reserva Yanomami hoje possui em torno de 10 milhões de hectares, por força de Decreto Presidencial, assinado pelo então presidente Fernando Collor, em 15 de novembro de 1991. Esse território indígena abriga no lado brasileiro cerca de 11.700 indivíduos tidos como Yanomami (na Venezuela eles se somam a 15.193 índios). Inicialmente, a área foi criada com 2,4 milhões de hectares, tão logo se tornaram conhecidos os resultados do levantamento sobre as ricas jazidas minerais ali existentes, realizado pelo Projeto Radam-Brasil, em 1975.

Há denuncias, contudo, até da inexistência dessa propalada etnia e que ela teria origem no Palácio de Buckingham (Inglaterra), que criou a organização não governamental denominada Survival International (1969), cujo objetivo principal de suas campanhas era a criação do Parque Yanomami, com recursos da Word Wildlife Fundation (WWF), Sociedade para a Preservação da Fauna e da Flora (inglesa) e dos magnatas James Goldsmith e seus primos da família Rothschild, um dos principais grupos capitalistas do mundo.

Segundo o coronel Gelio Fregapani, que serviu o Exército brasileiro durante quatro décadas, quase sempre ligado à Amazônia, a grita dos ambientalistas serve a interesses americanos e que a etnia Yanomami foi forjada pelos ingleses, cuja reserva atual, é maior e mais rica província mineral do planeta, na tríplice fronteira do Brasil, Venezuela e Guiana. “Nela, nem as Forças Armadas e a Polícia Federal têm jurisdição por força de lei e já existe na Organização das Nações Unidas (ONU) a idéia de torná-la nação independente do Brasil, por força de armas, se necessário”, diz o oficial. Gelio Fregapani fundou e comandou o Centro de Instrução de Guerra na Selva (SIGS), em Manaus-AM, além de ser autor de do livro “Amazônia – A grande cobiça internacional” (Thesaurus Editora, Brasília, 2000, 166 páginas), obra polêmica e nacionalista.

O coronel Rubem Moura Jardim diz que a Biblioteca do Exército distribuiu aos seus associados um livro de autoria do coronel Carlos Alberto Menna Barreto, que denuncia a inexistência, em todo o território brasileiro, de tribo indígena com a denominação “Yanomami”. Menna Barreto (já falecido) era oficial pára-quedista com o curso de Comando e Estado-Maior do Exército. Comandou o 26º Batalhão de Infantaria Pára-quedista e o 2º Batalhão Especial de Fronteira, sendo, a seguir, titular do Comando de Fronteira de Roraima (em território abrangido pela “Reserva Ianomâmi”, durante os anos de 1969, 1970, 1971). Depois foi secretário de Segurança Pública do atual Estado de Roraima, entre os anos de 1985 a 1988, portanto, tendo larga e prolongada vivência nos assuntos daquela região amazônica.

Sua obra diz que percorreu seguidamente o território da chamada “Reserva Ianomâmi”, fazendo pesquisas “in loco” e onde constatou não haver nenhuma tribo com esse nome dentre as 18 relacionadas no Estado. Evocando o fato, concluiu o militar que a tribo Yanomami não passa de história de ficção ou de uma farsa, o que o levou a dar o título ao seu citado livro de “A Farsa Yanomami”. A obra ainda esclarece que investigações feitas pelo autor e em estudos realizados por antropólogos e Indianistas que percorreram a área em questão, jamais apareceram quaisquer  referências à tribo “Yanomami”, inclusive na publicação intitulada “Índios do Brasil” (IIº volume), de autoria do Marechal Rondom.

O coronel Menna Barreto manifesta, em “A Farsa Yanomami”, o seu espanto pela omissão histórica dessa etnia, citando entre suas leituras Manoel da Gama, Lobo D'Almada, Alexandre Rodrigues Ferreira, os irmãos Richard e Robert Schomburgk, Philip von Martius, Alexander von Humboldt, João Barbosa Rodrigues, Henri Coudreau, Jahn Chaffanjon, Francisco Xavier de Araújo, Walter Brett, Theodor Koch-Grünberg, Hamilton Rice, Jacques Ourique, Cândido Rondon e milhares de exploradores anônimos que cruzaram, antes disso, os vales do Uraricoera e do Orinoco, sem identificaram quaisquer índios com esse nome.

Para ele, a fotógrafa romena Claudia Andujar, segundo a qual grande parte das terras de Roraima, seriam de posse “imemorial dos yanomami”, conseguiu a proeza de dar à ficção na imprensa internacional e os “Yanomamis” passaram a “existir”. Garante que a romena é a responsável pela “yanomamização” de uma babel de tribos que pouco ou nada têm entre si, a não ser a vasta região onde vivem. São várias etnias, com costumes e línguas diferentes, cujas culturas nem sequer registram o vocábulo “yanomami”, ou semelhante. “E quando Brasília se deu conta de que o reconhecimento de grupos indígenas requeria capacitação em Antropologia, o mal já estava feito: a fotógrafa havia criado uma nação”, afirma Menna Barreto.

A própria Comissão Pró-Yanomami (CCPY) reconhece que o etnônimo Yanomami foi criado pelos antropólogos a partir da palavra yanõmami que, na expressão yanõmami thëpë, significa “seres humanos”, expressão oposta à yaro (animais de caça) e yai (seres invisíveis ou sem nome), bem com a napë (inimigo, estrangeiro, “branco”). Apesar da polêmica, o fato está consumado e, para todos os efeitos, não faltou quem não quisesse dar a sua mãozinha para justificar essa causa ambientalista e humanitária dessa pretensa etnia brasileira, a partir dos conflitos dos indígenas de Roraima com garimpeiros, cujo ápice ocorreu no final da década de oitenta, quando houve uma verdadeira corrida do ouro neste então Território Federal.

Logo então surgiu a construção do etnônimo, da história e até do lendário Yanomami, sob as bênçãos do presidente Collor de Mello, que procurava tão somente, satisfazer os interesses da oligarquia britânica e do presidente George Bush (EUA), que lhes acenavam com a ilusória possibilidade do ingresso do Brasil no clube das nações do chamado Primeiro Mundo.

A Lenda – Os ditos Yanomami atribuem sua origem a cópula da entidade Omama com a filha do monstro aquático Tëpërësiki, senhor das plantas cultivadas. A criatura intermediária entre a natureza divina e humana é também responsável pela criação das regras da sociedade e da cultura yanomami atual, bem como a criação dos espíritos auxiliares dos pajés: os xapiripë (ou hekurapë). O filho de Omama foi o primeiro xamã. O irmão ciumento e malvado de Omama, Yoasi, é a origem da morte e dos males do mundo.

Os venezuelanos atribuem o gênese Yanomami a Lua, que vivia no corpo de um grande pajé. Quando o piaga morreu, a Lua saiu vagando pelo céu, mas voltou a terra para comer a cinza dos ossos dele. Os parentes do pajé, ao deparar o ato profano, tentaram em vão flechar a Lua, sem atingi-la, contudo. É que ela se esquivava delas, escondendo-se atrás das nuvens. Mas no final uma flecha a alvejou e a Lua começou a sangrar sobre a terra, brotando das gotas a nação Yanomami.

Apesar de não possuírem afinidade genética, antropométrica ou lingüística com os seus vizinhos atuais, como os Yekuana (de língua karib), que levam os geneticistas e lingüistas a deduziram que os Yanomami seriam descendentes de um grupo indígena que permaneceu relativamente isolado desde época remota, há quem delegue a esta etnia origem Ínca, ou melhor, às ex-Virgens do Sol, ocorrida durante as quatro datas nas quais migraram essas mulheres com seus filhos bastardos e que provocaram o surgimento da enigmática casta de índios brancos no Brasil, além das lendas como as das mulheres sagradas sem marido, que os espanhóis denominaram Amazonas.

Os registros históricos, contudo, dão conta que, quanto conjunto lingüístico, os antigos Yanomami teriam ocupado a área das cabeceiras do Orinoco e Parima há mais de um milênio, onde iniciou processo de diferenciação e desenvolvimento de suas línguas atuais. Segundo a tradição oral e documentos mais antigos que mencionam esse grupo indígena, o centro histórico do seu habitat situa-se na Serra Parima, divisor de águas entre o alto Orinoco e os afluentes da margem direita do rio Branco, que ainda é a área mais povoada por eles, tendo como dispersão de povoamento a partir dali para terras baixas circunvizinhas. Tal ocorrência aconteceu provavelmente no século XIX, após a penetração colonial na segunda metade do século XVIII.

Ainda sobre as ex-Virgens do Sol, vale registrar que se presume que, caso seja verdadeiro, que além de descendência incaica, os Yanomami podem ainda ter sangue espanhol (será?), visto que a conquista de Cajamarca, no norte do Peru, foi um dos episódios mais vergonhoso da história da América, tão cruel e abusivo que nenhum cronista da época teve coragem de relatar, quando os 166 espanhóis de Pizarro apoderaram-se das “Virgens do Sol” transformando-as em concubinas e gerando uma prole de bastardos abandonada à própria sorte.

É natural que essas mães, por terem sido repudiadas pelos próprios Incas por seus filhos brancos, iguais aos seus odiados inimigos, partiram para o êxodo na direção do Norte (Equador), visto que os espanhóis ocupavam o sul. Do Equador continuaram para a Colômbia (onde os indígenas jamais se integraram o império Inca) e de lá para o Leste em direção ao Brasil, a única opção de sobrevivência, através o caminho que alcançava os domínios do Imperador Guayana Capac, daí o nome Guayana, Guiana em português. O êxodo delas talvez tenha gerado os Yanomami, mas é bem provável que elas tenham originado a Lenda das Amazonas vistas pela expedição fluvial de Orellana.

Aliás, uma lenda dos índios Taulipang em Roraima, obtida pelo pesquisador Köch Grunberg em 1953, narra que um grupo de “mulheres sem marido” teria se fixado primeiramente na serra Parima (Ulidján-Topo). Mais tarde, a metade delas mudou-se para outra montanha, a leste de Tucutú (serras Tumucumaque, zona limítrofe entre Brasil, Guiana atual e Suriname), migrando pelo território Wai Wai, os quais até hoje descrevem a passagem destas “mulheres sem marido”. A outra metade do grupo feminino ficou na primitiva morada da serra Parima. Nos séculos seguintes, esse mesmo grupo passa a ser chamado de guaribas brancos na Venezuela, chegando a nossa época com o nome de Yanomami.

Acre, a conquista da última fronteira brasileira

O Acre foi a última área a integrar-se ao patrimônio nacional. Os acreanos foram à luta para conservar o território que haviam desbravado, tornando-o produtivo pela exploração da borracha. Além do sangue derramado, o solo acreano custou terras do Mato Grosso, a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, dois milhões de libras esterlinas e outras concessões favoráveis à Bolívia.


  

A minissérie “Amazônia, de Galvez a Chico Mendes”, exibida pela Rede Globo, trouxe à tona dois importantes temas da região amazônica: o período áureo da borracha e a anexação do Acre ao território nacional. A minissérie escrita por Glória Perez mistura aventura, romance e história na trama que começa nos idos de 1899, abordando três fases distintas da região, até os anos 80 do século XX.  A locação não poderia ser mais bonita, a Amazônia, com seus sinuosos rios e românticos navios-gaiolas que preenchem a sua belíssima paisagem, além da oportunidade para se conhecer o majestoso Teatro Amazonas, fruto do auge da borracha e símbolo do período de riqueza que o seringueiro construiu no coração da floresta. Os protagonistas da história são os mesmos da vida real, com pitadas de ficção e muito glamour.

Entre a ficção e a realidade, a minissérie coloca a Amazônia na vitrina, mostrando a sua face praticamente desconhecida do resto do Brasil. Quem ganha com isso é o Estado do Amazonas e, em especial, o Acre, a última fronteira conquistada na Região, cujo enredo baseia-se nas obras “Terra Caída”, de José Potyguara da Frota e Silva, e “O Seringal”, de Miguel Ferreante, que abordam o processo perverso de escravidão e as práticas da “política dos barracões” e do coronelismo do século passado, quiçá ainda perdurando até os nossos dias.

O Acre foi disputado por ter uma alta produtividade de borracha da melhor qualidade e por abrigar um grande contingente de brasileiros em suas terras. A região pertencia oficialmente à Bolívia, mas foi povoada por brasileiros. A situação foi ao ponto de fazer a Bolívia arrendar o Acre para um consórcio de capitalistas estrangeiros. Isso gerou uma reação nativista, a Revolução Acreana, que explica um pouco por que dizemos que essa é a história de como a Amazônia se tornou brasileira.

O índio já conhecia a borracha, que era usada por eles de maneira lúdica na fabricação de bolas para diversão e de utensílios diversos. Não havia o cultivo racional e contínuo do látex como uma força econômica. A seringueira era apenas uma das árvores que eles conheciam. Somente após 1839, ano em que Charles Goodyear aperfeiçoou o processo de vulcanização, é que houve um significativo aumento na demanda da borracha. Foi quando ela ganha importância e passa a ser a principal matéria-prima da Revolução Industrial. O produto vulcanizado, resistente ao calor e ao frio, era apropriado para uma ampla gama de industrializados, desde rodas dentadas, correias, mangueiras e telhas, crescendo posteriormente com a indústria automobilística.

Por ser o hábitat da Hevea brasiliensis, a Amazônia foi o único fornecedor até a década de 1880 e ainda na virada do século, a produção amazônica de borracha de alta qualidade excedia em muito a de seu concorrente mais próximo, a África Ocidental. Apenas depois de 1912, com a aclimatação bem-sucedida da hévea, é que as plantações asiáticas arrebataram da Amazônia a posição de primeiro produtor mundial. Assim, por mais de sessenta anos, a indústria dos produtos de borracha, setor chave do crescimento econômico das nações industrializadas, recebia toda ou a maior parte de sua matéria-prima da região amazônica.

Isso também gerou muita cobiça e muita disputa e explica o fato de 500 mil pessoas terem deixado o Nordeste brasileiro, tão castigado por sucessivas secas, para adentrar a Amazônia em busca da borracha, causa e atração principal de massas humanas que, a partir de 1877, invadiram os rios e matas do Acre.

Os rios da borracha da Amazônia se encontravam na região de Breves e Anajás (Ilha de Marajó), Jarí, Xingu, Tapajós,Madeira, Purus e Javari, que foram os impérios da produção da borracha até 1914. O Acre era, então, a verdadeira pérola negra da Amazônia, tendo em vista que as bolas de borracha escureciam com o tempo.

O território acreano despertou interesse dos bolivianos a partir da descoberta da borracha. O coronel José Manoel Pando, que chefiara em La Paz um golpe militar contra o presidente Anicete Arce, veio espiar o Acre, depois de exilar-se em território brasileiro. Viu no rio Acre um panorama que não lhe agradou. Mediu distâncias, fez cálculos e previu que o território pertencia à Bolívia. Pando se tornou presidente da Bolívia e durante seu governo foi responsável pelos fatos decisivos do conflito brasileiro-boliviano, culminando com a paz do Tratado de Petrópolis, quando o Acre virou totalmente boliviano. No Brasil, entretanto, surgiram protestos: os demarcadores da cartografia do Javari confirmaram que a nascente do rio estava mais ao sul, o que significava ganho de terras acreanas para o Brasil.

O ministro boliviano José Paravicini foi ao Acre e fundou o povoado Puerto Alonso (atual Rio Branco), e lá estabeleceu uma alfândega em janeiro de 1899. Desse momento em diante começaram as reações armadas dos acreanos contra a presença da Bolívia na região. Paravicini baixou decretos de regulamentação de justiça, de terra e de navegação. Os seringueiros acreanos sentiam-se atingidos em seus interesses e até em sua integridade física com essas medidas, mas receberam estímulo para a resistência do governo do Estado do Amazonas, o que não demorou a deflagrar a rebelião.

Em 1º de maio de 1899, o advogado cearense José Carvalho, secretário da Prefeitura Municipal de Floriano Peixoto (Estado do Amazonas), acompanhado de proprietários de seringais, exigiu dos bolivianos sua retirada, que em minoria, nada puderam fazer senão abandonar o Acre, tomando o primeiro navio-gaiola para Manaus. Nenhuma autoridade boliviana permaneceu, então, no Acre.

O espanhol Dom Luiz Galvez Rodrigues de Arias, atraído à Amazônia pela borracha, inicia contato com agentes do governador Ramalho Júnior, aos quais expõe seus planos de ir ao Acre, à frente de uma expedição, para assegurar a presença do Amazonas, portanto, do Brasil, naquela região. Havia suspeitas de um acordo recente entre a Bolívia e os Estados Unidos, com o objetivo de assegurar o domínio boliviano no Acre. Os Estados Unidos, prestando auxílio, receberiam concessões alfandegárias nos rios Acre, Purus e Yaco. Luiz Galvez escreveu reportagem nos jornais A Província do Pará, de Belém, e no Comércio do Amazonas, de Manaus, denunciando o suposto acordo.

O governador Ramalho Júnior prestou toda a ajuda à expedição de Galvez, que chegou ao Acre com seu grupo no dia 4 de junho de 1899, a bordo do navio-gaiola Cidade do Pará. No mesmo lugar, Puerto Alonso, onde os bolivianos foram depostos, a 1º de maio, por José Carvalho, o espanhol Luiz Galvez Rodrigues de Arias proclama a República do Acre, em 14 de julho de 1899.

Galvez organiza ministérios, remete comunicações em francês aos países importantes do mundo, lança proclamações patrióticas e executa obras públicas. Propõe organizar e manter o Acre dentro de boa fidelidade brasileira, mas independente, e, depois, entregá-lo ao Brasil. O governador Ramalho Júnior, entretanto, nega ao Governo Federal qualquer ingerência do governo amazonense nos sucessos acreanos, pois para ele seria importante ganhar tempo. A consciência nacional despertava a favor dos brasileiros no Acre e uma solução tinha que ser salvadora dos interesses do Estado do Amazonas na região acreana.

O presidente Campo Sales manteve inflexível a política de considerar o Acre boliviano, à luz do Tratado de Ayacucho e deu ordens ao seu ministro do Exterior, Olinto de Magalhães, para coordenar com os ministros da Marinha e da Guerra, a ida ao Rio Acre de uma força naval que extinguiu pacificamente a República do Acre, a 15 de março de 1900.

Luiz Galvez desceu o rio a bordo do navio-de-guerra Tocantins. De Belém seguiu para Recife e de lá se transferiu para a Europa. Mas sua atuação no Acre foi positiva, pois teve a intuição certa de desempenhar um papel histórico e comportamento lúcido: sua aventura no Acre veio estimular a opinião pública nacional a fazer o movimento de solidariedade aos brasileiros que lutavam por aquele território.

As forças da Bolívia, depois de combates esparsos com acreanos através do rio, concentraram-se em Puerto Acre. De Manaus chegou veio reforços contra os bolivianos. O jornalista Orlando Lopes, intelectuais e boêmios de Manaus organizaram uma expedição para expulsar os bolivianos e retomar o Acre, contando com o apoio velado do governador do Amazonas, Silvério Néri, que forneceu secretamente armas, munições, suprimentos e alguns dos homens da Polícia Militar do Estado. A investida não logrou êxito por falta de experiência militar, sendo o levante intelectual derrotado.

A Bolívia se consolidou com essa vitória e manteve a sua presença no Acre por algum tempo a mais, que fez o governo brasileiro pensar que a questão estava encerrada. Ato contínuo, a Bolívia arrendou o Acre para os norte-americanos do Bolivian Syndicate, dando ao sindicato o poder de explorar as terras do Acre e ocupá-las militarmente durante 30 anos.

Começa, então, o movimento armado contra a Bolívia, liderado por Plácido de Castro e bancado pelos seringalistas da região. Vencida a guerra, a diplomacia brasileira entrou em ação, incorporando o Acre definitivamente ao Brasil, através do Tratado de Petrópolis. A 27 de janeiro de 1903, o presidente aclamado, Plácido de Castro, assiste ao desfile de suas tropas e assina os primeiros decretos de constituição do Governo.

O período agudo da chamada Revolução Acreana, que vai de 6 de agosto (eclosão do movimento, em Xapuri) a 24 de janeiro (queda de Puerto Acre), assinala também um período de mudanças políticas e administrativas no Brasil. A 15 de novembro de 1902, o presidente Campos Sales transmite o poder ao nono presidente brasileiro, conselheiro Rodrigues Alves, que escolhe o Barão do Rio Branco como ministro do Exterior, que mantinha antiga preocupação em resolver a questão acreana. Sua providência imediata foi afastar o Bolivian Syndicate da região, encarregando a casa bancária Rothschild para a negociação com o sindicato, a fim de desistir do contrato mediante compensação financeira a cargo do governo brasileiro.

Em menos de 60 dias foi assinado em Nova Iorque (26 de fevereiro de 1903) a escritura de renúncia do Sindicato, mediante a quantia de 110 mil libras esterlinas. Assim, o Governo Federal mandou ao Acre o general Olímpio da Silveira, com efetivos do Exército, para ocupar essa faixa do território, objetivando evitar novos conflito na região e adquirir condições políticas para negociar com a Bolívia.

O Tratado de Petrópolis, assinado a 17 de novembro de 1903, conquistou lugar considerável na história diplomática brasileira e incorporou ao território nacional 181 mil quilômetros quadrados de terra. A Bolívia, em troca, recebeu terras brasileiras devolutas no Estado de Mato Grosso e espaços em lagoas fronteiriças, além da construção da Estrada de Ferro Madeira-Marmoré para servir de escoamento à produção da parte oriental da Bolívia. O Brasil também concedeu liberdade de trânsito nos rios amazônicos e facilidades aduaneiras, mais o pagamento de dois milhões de libras esterlinas aos bolivianos.

 

Ver-o-Peso reúne passado e presente desde 1625

Maior e mais movimentada feira livre de Belém testemunha de momentos históricos da cidade, é o lugar onde se encontra uma amostra do universo de variedades que compõem a cultura paraense que continua viva com um presente inovador.


 

O Mercado do Ver-o-Peso é um dos pontos turísticos mais importantes da cidade de Belém. Situado na confluência dos Rios Guamá e Pará, região conhecida como Baía de Guajará, o mercado faz parte de um complexo arquitetônico que compreende uma área de 35 mil metros quadrados, com uma série de construções históricas, entre elas o Mercado de Ferro, o Mercado da Carne, a Praça do Relógio, a Doca, a Feira do Açaí, a Ladeira do Castelo e o Solar da Beira. Todo o conjunto arquitetônico e paisagístico do Ver-o-Peso foi tombado em 1977 pelo Instituto Histórico e Arquitetônico Nacional (Iphan).

A história do mercado remonta a 1625, quando foi construído. O nome faz jus às chamadas Casas do Ver-o-Peso, projetadas no Brasil em 1614, no Rio de Janeiro, para conferir o peso exato de qualquer mercadoria e cobrar o respectivo imposto. Deixou de ser casa de conferência de peso em 1839. Anos depois, o Ver-o-Peso sofreu várias modificações, entre elas a construção do Mercado de Ferro, em torno do qual se desenvolveu a maior feira livre da cidade. A empresa La Rocque Pinto & Cia foi a vencedora da concorrência pública (1897) para a construção do Mercado de Ferro, obra que mede 1.197 metros quadrados, na forma de um dodecágono e cujo o peso é estimado em 1.133.389 toneladas, com estrutura metálica de zinco veille-montaine.

O Mercado do Ver-o-Peso insere-se, portanto, nas origens da cidade de Belém do Grão Pará, povoação fundada em 1616 num promontório formado às margens do igarapé de nome Piri, que desaguava na Baía do Guajará, na desembocadura do Rio Guamá, ponto de chegada e saída dos barcos e navios que adentravam o majestoso Rio Amazonas ou levavam as drogas do sertão para além-mar. Dali saiu a frota de Pedro Teixeira (1637) para estender a Linha de Tordesilhas aos limites atuais do Brasil. Ali aportou, em 1653, o Padre Antônio Vieira para suas lides missionárias indianistas, dedicando ao tema cartas e sermões memoráveis.

Oficialmente, o Ver-o-Peso foi criado para ser um posto fiscal, por solicitação da Câmara de Belém, passando a chamar-se Lugar de Ver-o-Peso. Tornou-se porto, mercado e feira até se transformar num importante espaço social, econômico e simbólico da cidade de Belém. O logradouro, com o decorrer do tempo, solidificou-se como o mais importante museu vivo de práticas culturais, onde se encontram os bens simbólicos da alma de Belém, a povoação de origem européia mais antiga da Amazônia, um elo entre a civilização e a floresta.

A equipe do Projeto Ver-o-Peso, de Miguel Chikaoka, descreve que o Ver-o-Peso assistiu, ao longo de todo o século XVIII, às “mudanças urbanísticas que a cidade sofria, em seu crescimento para a outra margem do igarapé do Piri”. A conformação cultural do mercado foi sendo impregnada pelas gentes que chegavam: escravos indígenas dos sertões amazônicos dos Rios Negro, Japurá, Solimões e Madeira; negros de Angola e Benguela; colonos portugueses vindos da África e da metrópole, além de comerciantes de escravos e drogas do sertão, missionários, cientistas e militares. No Ver-o-Peso, ainda no século XVIII, aportaram as primeiras mudas de café vindas de Caiena, capital da Guiana Francesa, conduzidas pelas mãos de Francisco de Melo Palheta, as quais mais tarde mudariam a economia e a história do Brasil.

No início do século XIX, no governo do Conde dos Arcos, o igarapé do Piri foi aterrado para atender aos avanços urbanísticos, mas a antiga foz do igarapé foi transformada numa doca tal como existe até hoje, mantendo-se ali as atividades do mercado. No final do século XIX, a margem da Baía de Guajará foi aterrada, transformando a paisagem do Ver-o-Peso: saem os velhos trapiches de madeira e a praia e entram as docas de pedra de lioz.

Ao longo do século XIX, muito da história política, econômica e social de Belém continuou passando pelo Ver-o-Peso. Em 1835, quando estourou a maior revolução social da região, a Cabanagem, foi ali que os cabanos aportaram antes de cruzar o caminho até o Palácio para assassinar o governador Lobo de Souza e ocupar o poder.

Foi dali também que saíram os primeiros carregamentos de borracha da Amazônia que mudariam, em plena Revolução Industrial, a indústria de pneumáticos. As sementes de seringueira levadas para a Malásia, que provocariam mais tarde o colapso da economia do látex, também saíram do Ver-o-Peso. Atraídos pelo dinheiro da borracha, imigrantes sírios, libaneses, italianos e judeus marroquinos incorporaram-se, com seus comércios, à múltipla paisagem humana do Ver-o-Peso.

No início do século XX, no auge da riqueza da borracha, a paisagem do Ver-o-Peso sofreu novas mudanças, com a construção de um mercado na margem da baía, pré-fabricado em ferro na Inglaterra; a ampliação do antigo mercado de carne situado nas proximidades; o aterramento da baía; e a construção do porto pelos ingleses; além de outras construções seguindo um padrão arquitetônico europeu, de estilo eclético.

No entorno do Ver-o-Peso, o casario colonial da margem esquerda do antigo Piri continua lá, emoldurando o conjunto. No espaço aterrado do igarapé, foram construídas a Praça do Relógio e a Avenida Portugal.  Na outra margem, ainda resistem muitos sobrados margeando o mercado e a feira, construídos no século XIX, seguindo até à Igreja e Convento das Mercês, monumento de autoria do arquiteto italiano Antônio Landi, construído no século XVIII. Os monumentos setecentistas dos Jesuítas e Marcedários integram os limites do que atualmente os urbanistas de Belém chamam de Complexo Ver-o-Peso, espaço significativo para a identidade econômica e cultural da cidade de Belém e de toda região.

Enfim, a maior e mais movimentada feira livre de Belém é o lugar onde se encontra uma amostra do universo de variedades que compõem a cultura paraense. Mistura o passado, que continua vivo, com um presente inovador. Na Feira do Açaí, por exemplo, é possível apreciar o fruto, cuja bebida é a base da alimentação dos paraenses e desfrutar das comidas típicas, como o pato no tucupi (caldo retirado da mandioca ralada e fervida) e a maniçoba (espécie de feijoada de influência indígena, feita com uma erva chamada maniva).

O Complexo Ver-o-Peso, que se candidata atualmente a Patrimônio Histórico da Humanidade da Unesco, recebeu recentemente duas grandes reformas. A primeira reforma aconteceu em 1985, na administração municipal de Almir Gabriel, quando o velho Mercado de Ferro, com suas torres, colunas e escadas, todas em ferro, forjadas em Londres e Nova York e montadas no local, foi restaurado. Também o Solar da Beira, construção em estilo neoclássico, recebeu reformas e foi transformado em restaurante e espaço cultural da cidade. A Praça do Pescador e a feira livre também ganharam melhorias e mais beleza com reformas gerais e com a construção da Praça dos Velames e de barracas padronizadas, sob a batuta do arquiteto Paulo Fernandes Chaves, então assessor de urbanismo na gestão de Almir Gabriel.

Em 2001, o mercado passou por outra grande reforma, na administração do prefeito Edmilson Rodrigues, com a construção de barracas padronizadas e outras importantes obras em todo o Complexo Ver-o-Peso, incluindo a Feira do Açaí e a Praça do Pescador. ]

Ao todo são 26 mil metros quadrados, onde estão instaladas duas mil barracas e casas comerciais populares onde são vendidos desde carnes, peixes, legumes, frutas, artigos regionais, artigos de umbanda, ervas medicinais, roupas e bijuterias. Apesar de parecer um grande varejão, a mistura de cores, cheiros e objetos é muito interessante, além de folclórica. Mandingas, encantarias e remédios para todos os males são atrações à parte nessa feira livre. As mandingueiras são mulheres que vivem de misturar ervas, perfumes e pedaços de animais, criando poções mágicas. Para elas, qualquer problema tem solução, inclusive para traição, solidão, atrair bons negócios, espantar mau-olhado e curar doenças.

 

 

Sucuri, a rainha das serpentes

Confundida com a lendária Anaconda ou, ainda, com a Cobra-Grande, Boiúna e outras entidades ofídicas da mitologia amazônica, esta cobra seria capaz de engolir uma pessoa inteira, pois exemplares com mais de seis metros de comprimento teriam condições de devorar presas do tamanho de um ser humano

 
            Dos animais da fauna amazônica, a sucuriju (Eunectes murinus), ou sucuri, é a que carrega maior simbolismo e causa mais temor entre a população regional. Ela inspira o medo que está impregnado na memória cultural de nossos ribeirinhos, originando lendas e ocasionando histórias fantásticas. Há quem a confunda com a lendária Anaconda ou, ainda, com a Cobra-Grande, Boiúna e outras entidades ofídicas da mitologia regional. Os paraenses acreditam que existe uma imensa cobra enterrada sob a cidade de Belém, cuja cabeça encontra-se embaixo da Igreja da Sé, na Cidade Velha, e o rabo sob a Basílica de Nazaré, dois mil metros distantes. A população belenense teme que a cobra desperte e se mova, causando a destruição dessa parte da capital paraense, já que também acreditam que a cidade está sobre um promontório flutuante.

Outra história dá conta que, no município de Santana, a 32 quilômetros de Macapá, capital do Amapá, existe uma víbora enorme chamada Cobra Sofia, guardiã do porto local. Dizem que ela mora no rio que passa na frente da cidade e acredita-se que um dia ela irá acordar do seu sono e nesse dia a cidade irá para o fundo do rio. A crença cabocla diz que muitos dos igarapés e furos amazônicos são formados pela passagem da Cobra-Grande que abre enormes sulcos nas restingas, igapós e até na terra firme. Há quem fale que as sucuris também são responsáveis pelas terras caídas, erosão provocada pela correnteza do rio Amazonas nas ribanceiras.

O misticismo provocado pelas serpentes ultrapassa fronteiras, sendo comum encontrar lendas, mitos, rituais e crenças que envolvem diversas espécies de ofídios. Nos Rios Solimões e Negro, a Cobra-Grande nasce do cruzamento de uma mulher com uma assombração (visagem) ou de um ovo de mutum; no Acre, a entidade mítica transforma-se numa linda moça, que aparece nas festas de São João para seduzir os rapazes desavisados. O lendário também apresenta a Cobra-Grande como uma benfeitora à navegação dos rios amazônicos, cujos olhos tornam-se grandes faróis para orientar os embarcadiços nas noites escuras e durante as tempestades. A versão contrária coloca a Cobra-Grande como entidade do mal, tal a sua voracidade e multiplicidade de transformação.

Na língua tupi-guarani, sucuri quer dizer “a que morde rápido”. Esta cobra costuma ficar na beira dos grandes rios, esperando que suas presas cheguem para beber água e assim consiga capturá-las. A cobra agarra a vítima pela cabeça e em seguida busca um ponto de apoio (raízes, galhos e troncos) em terra ou até mesmo dentro da água, onde enrola sua cauda para poder estrangular a vítima com laçadas de seu corpo. Não costuma quebrar os ossos das vítimas, como muitos pensam, para facilitar a ingestão, e sim buscam a constrição, apertando até matar por asfixia. Quando molestada, a sucuri se enrodilha, ficando com aparência de um cone, e coloca sua cabeça entre as grossas voltas de seu corpo.

A sucuri é a segunda serpente de maior comprimento no mundo, depois de sua prima que vive na África, Ásia e Austrália, a píton (Piton reticulatus). A sucuri não possui glândulas produtoras de veneno, mas em sua boca encontram-se fileiras de pequenos dentes pontiagudos que contribuem para não deixar que suas presas fujam. Apresenta colorações e marcas características que variam de indivíduo para indivíduo em áreas geográficas afastadas e de acordo com sua idade. Normalmente sua cor é parda-azeitonada, com duas séries de grandes ocelos negros (manchas arredondadas ou ovaladas), ornadas de tom levemente claro, geralmente tocando-se uma à outra ou também de forma intercalada.

Possui uma cabeça grande que difere de seu pescoço. Esta é revestida na parte posterior (de trás) por pequenos escudos irregulares e numerosas escamas pequenas a completam; seus olhos são pequenos e com pupilas verticais (característica de serpentes peçonhentas, juntamente com suas numerosas escamas). Existe muita discussão para se saber com exatidão o maior comprimento já atingido por uma sucuri. Os comprimentos normais, já registrados por muitos pesquisadores, variam entre seis a 11 metros, pesando até 400 quilos. Seu tempo de vida é muito longo. Há casos de exemplares que viveram em cativeiro durante 30 anos.

Na época reprodutiva, a fêmea exala um odor que atrai os machos para seu encontro. O acasalamento é feito após um longo período de jejum. A sucuri é uma espécie ovovivípara, isto é, os filhotes eclodem de seus ovos no interior da barriga de sua mãe e já nascem prontos para desvendar a floresta à procura de alimento. Sua ninhada é geralmente muito grande, variando de dez a 70 filhotes a cada gestação, que dura de 225 a 270 dias.

A sucuriju ou sucuri é encontrada praticamente em todo o Brasil, com distribuição em outros países, como Venezuela, Paraguai, Argentina, Bolívia, Colômbia, Peru, Equador e Suriname. Habita as florestas e áreas abertas, vivendo nos grandes rios, lagos, igarapés, várzeas e alagados (igapós).

A “gigante amiga” possui hábitos estritamente aquáticos, mas também procura a terra para encontrar alimento ou para dar à luz aos filhotes. Costuma ter maior atividade durante a noite, quando sai à procura de suas presas, preferindo animais de porte pequeno. Compõem seu cardápio com peixes, anfíbios, aves paludícolas (que vivem nos charcos e lagoas), lagartos, outras serpentes (até seus próprios filhos), cágados, jacarés, pacas, cutias, capivaras, porco do mato, filhotes de anta, veados, bezerros, macacos, felinos (há casos de lutas com onças e suçuaranas), etc. Pode ficar em jejum durante meses. Porém quando se alimenta, passa dias, semanas e até alguns meses imóveis, digerindo o que capturou. Existiu um exemplar mantido em cativeiro no Museu Emílio Goeldi (Pará), que permaneceu por 19 meses sem ter emagrecido.

A sucuri não se alimenta de bovinos adultos, como muitos acreditam, pois ela não suportaria engolir um animal de grande porte, mas como outras serpentes, é capaz de desarticular os ossos de sua mandíbula para que possa engolir presas maiores que a abertura de sua boca. Para facilitar a ingestão do alimento, ela produz muita salivação que umedece todo o corpo da presa, facilitando sua ingestão. A caça, depois de envolvida pela enorme força de constrição da sucuri, fica com seu corpo mais longo, fino e deformado.

A cobra seria capaz de engolir uma pessoa, pois exemplares com mais de seis metros de comprimento teriam boas condições de engolir presas do tamanho de um ser humano. Os casos são raríssimos, além do que as pessoas não fazem parte de seu cardápio preferencial.